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Valor Economico – 17/10/2008
Bancos freiam crédito consignado
O consignado surge como uma das primeiras modalidades de crédito para pessoas físicas a sofrer com a crise internacional. Com as margens apertadas pela alta do custo de captação em um ambiente de juros limitados pelos órgãos públicos, os bancos reduziram a oferta de novas linhas. Estimativas de mercado dão conta que a redução nos empréstimos para aposentados e pensionistas do INSS pode ter chegado a 80%.
Os bancos mantêm ainda convênios com outros órgãos públicos, estatais e governos, com um parte importante deles também impondo limites para os juros. Isso tem inviabilizado muitas operações, afirma Renato Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). "Quem tem teto, precisa rever, porque o mercado mudou. O dinheiro está mais caro e escasso".
A desaceleração do consignado é anterior ao agravamento da crise e começou com a mudança no limite de endividamento do aposentado de 30% para 20% e também com o teto fixo em um momento de alta da Selic. Segundo dados do Banco Central, o consignado acumulava saldo de R$ 74 bilhões, em agosto, com crescimento de 23% em 12 meses, inferior aos patamares de anos anteriores.
Com o aprofundamento da tensão mundial, no entanto, o custo do dinheiro disparou e a liquidez do sistema bancário brasileiro ficou concentrada na mão dos grandes bancos, prejudicando ainda mais um mercado em que os pequenos e médios têm participação relevante.
Segundo Oliva, as instituições financeiras estão avaliando a atratividade de cada contrato. Isso significa olhar a rentabilidade, o fluxo operacional, a qualidade de sistema de troca de ativos e os beneficiários dos empréstimos. "Os bancos vão escolher trabalhar com os convênios mais atraentes".
O primeiro banco a anunciar o fim da oferta foi o Banco Máxima, cuja carteira estava próxima de R$ 100 milhões. Em decisão tomada antes mesmo do agravamento da crise, a instituição optou por encerrar as operações e voltar suas atenções para o crédito estruturado para médias empresas.
A conseqüência natural é a redução das equipes. "Das 70 pessoas que trabalhavam na área, mantivemos apenas 20 para continuar no processo de cobrança e de manutenção dos créditos ainda ativos", disse Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima.
Outros bancos começaram a fazer o mesmo ou a elevar as restrições para novos empréstimos e encolher os prazos. O Banco Pine, por exemplo, já vinha, desde o início do ano, reduzindo sua participação no segmento.
De acordo com Edison Costa, presidente da Associação dos Correspondentes Financeiros no País (Acfip), houve uma contração bastante grande do crédito. "Recebemos instrução dos bancos para contrair os prazos em algumas especialidades". Segundo ele, a maior seletividade está concentrada nas linhas da iniciativa privada. Em alguns contratos com empresas, o prazo chegou a ser reduzido para 24 meses.
Outra medida tomada, disse Costa, foi o repasse dos aumentos dos custos de captação. "Desde segunda-feira houve um reposicionamento completo das taxas. Todo dia tem revisão. É difícil até de saber...". Com a menor oferta, as demissões já começaram, disse. Estimativas da Acfip dão conta que as principais promotoras de vendas de consignados reúnem em torno de 30 mil pastinhas.
Com esse movimento, há uma tendência de os bancos de médio porte reduzirem suas exposições nessas carteiras e optarem por modalidades mais rentáveis. Por outro lado, com o aumento dos juros, alguns bancos conseguem fazer a mesma receita com um número menor de operações em segmentos que permitem o repasse.
Além disso, alerta Oliva, sem essa opção de crédito, os clientes podem recorrer a modalidades mais caras e curtas, como o empréstimos pessoal, o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito. "No limite, por haver até uma desintermediação financeira".
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