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Valor Economico – 03/10/2008
Bancos médios devem desacelerar concessão de crédito
Os bancos brasileiros de médio porte devem reduzir a concessão de crédito para enfrentar o aperto de liquidez mundial causado pela crise financeira. O objetivo é deixar dinheiro em caixa e diminuir a necessidade de captação de recursos, cada vez mais escassos.
O Banco Cruzeiro do Sul já começou a implementar essa estratégia. "Diminuímos em um terço a originação de crédito consignado", afirmou Fausto Guimarães, superintendente de relações com investidores. Esse tipo de empréstimo corresponde a 92% da carteira total da instituição, de R$ 3,7 bilhões em junho.
"Também estamos elevando as taxas e reduzindo os prazos dos empréstimos realizados", admitiu o executivo. O custo de captação do Cruzeiro do Sul, via certificado de depósito bancário (CDB), subiu de 109% do CDI no segundo trimestre deste ano para 115% agora, segundo Guimarães. "E as captações externas, responsáveis por 18% do funding, secaram" , disse.
O aumento do custo de captação é generalizado. "Mas os bancos médios, pela quantidade mais restrita de fontes de recursos, sofrem mais", destaca Ceres Lisboa, analista da agência de classificação de riscos Moody´s.
A desaceleração das operações deverá ser adotada pelas demais instituições médias, segundo os analistas. "Os bancos deixarão de renovar parte das linhas dos clientes para incrementar a liquidez. Também terão de se tornar mais seletivos e criteriosos na avaliação de risco dos tomadores, para evitar um aumento da inadimplência, que geralmente acompanha os períodos de desaceleração econômica", avalia o economista João Augusto Salles, da Lopes Filho.
Outro problema que os bancos médios podem ter é a maior dificuldade de ceder carteiras de crédito para grandes instituições, como Bradesco e Itaú, que vinham provendo funding para essas instituições com a compra de operações desde a quebra do Banco Santos. O altíssimo percentual dos compulsórios dificulta a margem de manobra dos grandes bancos com esse aperto de liquidez no exterior, e alguns já estão reduzindo as compras de contratos.
Segundo o próprio Cruzeiro do Sul, o apetite dos grandes bancos pelos ativos é menor hoje do que no passado. Além de terem menos recursos sobrando para as aquisições, eles já desenvolveram as próprias operações e o consignado já atrai menos porque o potencial de crescimento diminuiu. "As compras de carteira ficaram caras", afirmou Aloisio Lemos, analista da Ágora Corretora.
Os bancos médios mais vulneráveis ao cenário atual e que terão de tomar medidas mais vigorosas para manter a liquidez são os especializados em crédito consignado e financiamento de veículos, que têm prazos mais extensos. "Os recursos de longo prazo foram os que primeiro desapareceram do mercado", ressaltou Salles.
As operações para empresas de médio porte - o chamado "middle market" - têm prazos menores. Portanto, o risco de descasamento entre a captação dos bancos e o repasse de recursos aos clientes nesses casos é menor. Dessa forma, é possível que algumas instituições passem a mudar um pouco o portfólio de produtos, para ajuste à nova realidade.
O banco Pine, por exemplo, vem aumentando a participação do crédito a empresas na carteira total, ao mesmo tempo em que reduz a fatia de pessoa física (consignado). Os contratos corporativos, que respondiam por 50% do portfólio total da instituição em junho de 2006 e 60% em junho de 2007, equivalem agora a 70%.
Apesar dos riscos do setor, os analistas não acreditam em problemas de insolvência no curto prazo. "Estamos monitorando muito de perto a situação e não vemos risco de quebra", disse Ceres, da Moody's. As instituições ainda estão capitalizadas, por conta do dinheiro obtido em ofertas públicas de ações realizadas em 2007.
"A margens e a rentabilidade podem cair com a redução da concessão de crédito, mas não vejo risco de quebradeira, pois os balanços são saudáveis", disse Lemos, da Ágora. No segundo trimestre, os bancos ainda apresentaram crescimento significativo nas operações de crédito. A menor expansão foi a do Sofisa, de 49% em relação ao mesmo período de 2007, segundo o Valor Data.
Uma outra possibilidade é que o processo de consolidação se acentue. "Esse pode ser um caminho para os bancos que venham a ter problema de funding", disse a analista da Moody´s.
Com esse cenário de incerteza, as ações das instituições financeiras, que já tinham desempenho negativo na bolsa, caíram ainda mais nas últimas semanas. No acumulado deste ano, a menor queda entre os papéis do setor é a do Paraná Banco, de 34%, superior à do Ibovespa (-28%).
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